INFILTRAÇÃO | Olhos postos no tecto | 2020

Dito e feito #15 (TBA)

Para este episódio começamos com uma questão: como dar a ver uma dança através do som? Uma dança invisível que tenta descrever-se a si própria na primeira e na segunda pessoa. As palavras que usamos para dar a ver o movimento tentam acompanhar o corpo, mas tendem a ordenar, precisar, objetivar, forçar a uma quase lentidão e a uma monotonia domável. Já o movimento tende a ser variável, anárquico e a resistir à nomeação.
Às vezes as palavras passam ao lado dos movimentos como balas rasantes e perde-se a orientação. Outras vezes os movimentos acumulam-se à espera das palavras numa contenção que acaba por explodir. E com a impossibilidade de descrever tudo, as palavras tomam outros sentidos. E na dificuldade de ser descrito, o movimento esquece-se das palavras e avança indomável. Movimento e palavras têm densidades diferentes: um encontra o chão com estrondo, elas vagueiam, rondam e hesitam. Neste episódio a dança habitará algures na memória de quem a ouve — num espaço mental onde o ouvinte é também intérprete, traduzindo palavras e sons em imagens mentais de corpos em movimento.

[recomenda-se o uso de auscultadores]

 

This episode begins with a question: how can we illustrate a dance through sound? An invisible dance that attempts to describe itself in the first and second person. The words we use to illustrate the movements try to accompany the body but tend to command order and precision, to objectify, forcing a slowness and tameable monotony. In turn, movement tends to be mutable and anarchical, defying the attribution of a name.

At times the words graze the movements like stray bullets and all orientation is lost. Other times, the movements accumulate, waiting for the words: a tension that eventually explodes. And with the impossibility of accurate description, the words take on new meanings. And with the difficulty of being described, the movements forget the words and move forward, indomitable. Movement and words have different densities: one hits the floor with a thud, the others wander, hover and hesitate. In this episode, dance will inhabit the memory of those who hear it – a mental space where the listener is also the performer, translating words and sounds into mental images of moving bodies.

[we reccomend the use of headphones]

criação e gravação: Sofia Dias & Vítor Roriz

edição sonora: Sara Morais

música original: Raw Forest

produção: Teatro do Bairro Alto

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